Hoje eu acordei pensando em Trilussa. Não sei, tem alguma coisa no ar. Se fosse místico diria que era uma relação com o aniversário de 135 anos do poeta no último dia 26. Mas não deve ser isso.
A disputa entre o Um e o Zero
Trilussa
“Eu valho muito pouco, sou sincero, dizia o Um ao Zero. No entanto, quanto vales tu ? Na pratica és tão vazio e inconcludente quanto na matemática. Ao passo que eu, se me coloco à frente de cinco zeros bem iguais a ti, sabes acaso quanto fico ? Cem mil, meu caro, nem um tico a menos nem um tico a mais. Questão de números. Aliás, é aquilo que sucede com todo ditador que cresce em importância e valor quanto mais são os zeros a segui-lo”.
Ouvi falar de Trilussa (nome-de-plume do escritor italiano Carlo Alberto Salustri) na adolescência e por um caminho curioso que começa com outro poeta: Vladmir Mayakovski.
Foi numa biblioteca perto da minha casa. Muitos livros, cheiro de mofo. Eu gostava de lá. Um dia me bato com um livrinho de poemas do Mayakovski. Revolucionário, dramático, apaixonado, suicida. Eu era adolescente, já disse, e ouvia um bocado de bandas que cantavam uns “fuck the system”. A pequena biografia no prefácio da edição me fisgou. Eu locava o livro numa semana, devolvia na outra, lia outra coisa, locava de novo, passava um mês sem ler nada, pegava o livro de novo… Coisas da idade. Mas eu (não só hoje, mas de uns dias pra cá) tenho pensado mesmo no Trilussa.
Um dia, a bibliotecária ( uma senhora com cabelos de algodão enrolado ) me perguntou : Você conhece o Trilussa?
Quem?
“Poeta italiano… politizado” disse ela “travou polêmicas com Mussolini usando os versos, semelhantes às do seu amigo russo com o Lênin”. Ouvi um martelo e uma voz (Dentro da minha cabeça): vendido para o garoto magrelo de cabeça grande!
Não tinha livro dele no acervo, mas a senhora me deu umas poesias em cópia xérox. Eu gostei. Não posso dizer que teve o mesmo impacto que o drama dos russos: “Melhor morrer de vocka do que de tédio” e todas as “Lilas” que eu elegia soavam muito mais forte. O Trilussa, eu pensava então (armado de minha prepotência juvenil) escreve muito bem, mas tem um tom meio … professoral! E agora ele veio mesmo me assombrar.
Melhor nem entrar na metafísica e partir logo para o exorcismo. Não tenho mais aquelas cópias. Achei na rede dois dos poemas que me lembrava. Um já posto, encerro com o segundo. Tem alguma coisa nessas palavras que…
O Gato Socialista
Trilussa
Um gato, conhecido socialista,
No fundo, espertalhão matriculado,
Estava devorando um frango assado
Na residência de um capitalista
Eis então que outro Gato apareceu
Na janela que dava para área:
– amigo e companheiro, também eu
faço parte da classe proletária!
Melhor do que ninguém, conheço as tuas idéias.
Estou mais que certo pois
De que dividirás o frango em duas partes,
uma para cada um de nós dois!
– Vá andando, resmunga o reformista,
Nada divido seja com quem for,
Em jejum, sou de fato socialista,
Mas, quando como, sou conservador.
